sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Falo-te, suicida

  Eu gosto de olhar pro céu. Deixa-me feliz, mais leve, dá-me a impressão de  que estou sob um véu gigantesco e que depois dele há um outro mundo, cheio de flores, amores e gosto de marisia. É tão bonito, tão majestoso, que dá vontade de mergulhar bem fundo, de molhar os cabelos na lua que reflete no mar, mesmo sem saber onde é seu paradeiro. O céu, assim, sobre meus olhos castanhos, parece o vestido da Morte - só que ele é vida, é escuridão e luz ao mesmo tempo, tudo junto. Também as estrelas que nele dormem são belas; as tais “namoradas dos vaga-lumes” (como gosto de chamar) muitas vezes me dão vontade de sorrir, noutras de chorar lágrimas doces. Não sei se é assim pra todo mundo ou se minh’alma faz parte dum corpo hipersensível que vê coisa onde ninguém mais vê. É que eu ando sempre muito cheia, cheia a ponto do meu corpo pedir preu deixá-lo transbordar. Mas não quero, num posso, porque essas gotas d’água molham o que tá seco, fazem sofrer cada canto do meu corpo, transformam o vazio num peso imenso que caí sob meu coração fraco, fraco. Aí eu engulo, deixo a dor dominar minha garganta, mantenho seus nós bem apertados. E quando fica tudo muito difícil, insuportável em todos os sentidos, olho pro céu, peço ajuda às nuvens, às cores que não sei distinguir, e tomo um bom café, porque o calor dele alivia a tal dor aprisionada na goela.
  Hoje toda palavra bonita que canto soa artificial, e a necessidade de comprar flores para dar de presente a mim mesma só cresce. Meu corpo efêmero suporta apenas o peso dos livros, da complexidade das canções, do céu. Torno-me cada dia mais amante do outro lado do mundo e menos pertencente a esse que vivo. Ainda vejo todas as coisas quando fecho os olhos, sinto melodias quando não há som, coloro com branco telas pretas, desenho o que não existe - e continuo sem saber o que sinto, quem sou eu, sobre as coisas que gosto. A única certeza que carrego é a de que sou ávida de amor - mas seria o amor bom? É só mais uma incerteza. Tô com vontade de gritar segredos de liquidificador, de pôr um disco vinil pra tocar e dormir sem pretensão de acordar. Tô com vontade de contar as estrelas, de trocar a estação, de arrancar da parede da memória o que se fez quadro mal pintado. Tô cheia das vontades, e essas vontades me sufocam…
  Tristeza tá comigo, lá em casa. Ironicamente, de uns tempos pra cá, tenho sentido-me muitíssimo só. Não recebo mais respostas pras cartas que escrevo, não ouço mais o soar da campainha e sou olhada com caras feias porque carrego comigo essa mania de ver o mundo de forma diferente. Acontece que não posso evitar, pois mora em mim uma pequena aprendiz de poetisa, teimosa que só, que se recusa a fechar as portas do meu coração pra mergulhar na ignorância e na falta de percepção que domina tudo e todos os cantos - até os becos sem saída. Ah, eu tento não me importar com os traços que me encaram, pois nada posso fazer por aqueles que escolhem ternos, esmaltes, e televisão, se não lamentar. Mas me importo, já que também nasci do ventre, também sou feita de carne e osso, e sentimentos me dominam como dominam o universo. Se choro? Choro nada. Apenas encolho-me num pedaço do mundo, reservo-me à minha loucura sã e trato de escrever, de pintar, de dançar, de servir à arte, pois ela é o alimento mais poderoso que há e fortalece-me como nada mais.
  Uma pergunta que te faço: tu comes arte, meu filho? Devias, ainda mais se tu sabes como é sentir um aperto sem raiz no coração, como é não entender o que se passa dentro de ti mesmo. Não gosto de ser direta assim, pois aí a poesia se torna vã, mas não vou enrolar: a triste verdade é que tu jogas nesse meu time abandonado, sem técnico, sem manual de instruções - e estás completamente perdido. Mas fiques calmo, eu te atento: não desistas, olhe pra cima que tu tens tudo o que precisas bem alí, metamorfoseado nas coisas mais puras, simples e bonitas de se ver. E vejas, tem uma refeição inteira aí, na tua frente, querendo ser devorada, implorando pela fome!
  Agora, sem mais nem menos, um desejo te confesso: eu quero me casar com o céu, beijá-lo, ouvi-lo contar histórias de pessoas cuja nomes ambos desconhecemos, perguntá-lo qual é o meu problema e porque o mundo não pode amar poesia, também. Eu quero juntar-me à ele e virar a senhora da noite, sem pretensões de grandeza, apenas para poder pôr estrelas sobre poetas que precisam de inspiração, sobre compositores que ainda não encontraram a melodia perfeita. Ah, almejo-o lendo meus poemas, incorporando-os nas nuvens, abraçando-me forte, contando conchas comigo à beira-mar. Só não quero saber de seus segredos, pois que graça há na ausência de mistério? O amor que o dedico é quase enlurado, e espero que possa me salvar desse abismo em que me lanço.
  E ainda que eu diga que resisto ao choro, minto, ponho máscaras na frente do próprio rosto marcado pelas lágrimas que não param de rolar. Escondo esse fato como se fosse minha fraqueza, mas agora vejo que é coisa admirável e devo minha vida à ele. Pois se não chorasse, aí sim não aguentaria, já que meu corpo me limita a grandes extensões e o que me compõe é tudo, menos pequeno.
  Não sou de todo suicida…

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Como Mar e Lua


 Estavam sentados nuns bancos meio bambos tomando um açaí daqueles bem gostosos, gelados e doces. A Noite já havia saído, e trajada com sua manta negra favorita (volumosa e cheia de brilhantes), se fazia infinita e misteriosa lá no céu. O menino e a menina amavam açaí e não hesitavam em prová-lo o tempo todo, pois o gosto era bom, e muito bem eles faziam ao aproveitar as coisas boas da vida, coisas que davam prazer, felicidade. Eles olhavam pra noite como quem queriam estar no lugar dela, vendo o mundo inteirinho, todas as pessoas, seus encontros, seus temores, tudo. A verdade é que eles queriam mesmo, pois imagine só! Lá de cima dá pra fazer milagre, chorar chuva, ver a lua refletida no mar. E o mar, sob a Noite, ficava tão cheio de lua que parecia guardá-la dentro de suas águas negras e profundas. Era belíssimo, tal como o mais fantástico espetáculo dos deuses, que dava aos moços uma vontade de levantar e aplaudir; o que eles de fato faziam, sem pestanejar.
 O casal dedicava seu amor à poesia, que protegida no açaí que suas bocas degustavam com apreciação, na amplitude da Noite, em seus cabelos, nos brilhantes dos trajes que estrelavam o céu e nos seixos presos à beira-mar, davam sentido à vida que os mesmos insistiam em utilizar. O menino e a menina, espertos e safos, de bobos não tinham nada; levavam consigo a certeza de que a vida havia de ser tudo, menos fácil, mas ainda assim sorriam para ela e aceitavam o que ela tinha para oferecer com todo o bom grado. E quando faziam poesia, era até meio gozada a cena que eles pintavam com a mente: a menina, ela mesma usando as roupas da Noite, fazendo chover sobre os que sentem calor, aliviando as dores dos mais secos, consolando os desprotegidos. O rapaz, a mesma menina dividindo um açaí com ele, os dois usando a mesma colher, sob o luar da cidade que se desfazia, invadida tamanho amor.
 Por falar nos quadros pintados, em suas respectivas mentes havia vários deles, de todos os tamanhos, com cores que ninguém conhecia (tampouco sabia o nome), com imagens que de concretas nada tinham e um pedaço da criatividade que neles mal cabia. Eles eram ávidos da arte que coloria suas vidas pretas e brancas e gostavam de personificar as mais diversas metáforas neles mesmos. E pois depois de tanta semelhança, inúmeras diferenças também tinham; enquanto os cabelos dela caíam curtos e lisos em seus ombros, os dele eram longos e cacheados, como dos anjos das histórias que eles mesmos escreviam. Ela insistia em defender os frutos e ele o trabalho, ela as flores e ele as árvores, uma as nuvens, o outro a limpidez. E assim, com suas semelhanças e diferenças, se reuniam nos dias de Noite bonita e tomavam um açaí grandão, bem delicioso.
 Ninguém sabia que eles eram tão grandes que seus corpos mal assistiam a si mesmos. E eles mantinham a mania de desejar ser a Noite para verem a lua dentro do mar e parecerem estar pertinho, quase como se pudesse capturar a mesma com próprias mãos...
 O menino e a menina muito tinham para contar. "Como prosavam com tamanha facilidade? Como construíam, com essa aptidão inigualável, composições frásicas tão erradas e tão poéticas?", a Noite se perguntava, temendo a resposta deles. A verdade é que ela queria escrever também, e almejava transformar sua alma numa apologia à arte e à beleza das coisas simplórias - tal como a do casal.
 Agora estavam sentado nas cadeiras de madeira e duas das pernas delas eram tortas. O tal açaí quase que acabava, só que tava tudo bem, pois depois eles iriam cada um pro seu canto rabiscar uns versos e dormiriam inebriados, ainda imersos na sensibilidade da fantasia que o mundo os proporcionava. Poeta e poetisa, eles eram como mar e lua e viviam um amor enluarado - mas não sabiam. Juntos, descobriram que para dar profundidade e boniteza aos seus rascunhos, não precisavam usar todas as vírgulas, as palavras mais formosas nem escrever tudo certinho, assim, como que tirado de gramática, mas pôr um pouco da sutileza que formavam suas almas tão transbordantes. Imagine, o casalzinho de moços não tinha muito mas tinha tudo, e às vezes, mesmo a Noite, com toda a sua grandeza admirável, despia-se e invejava-os de pertinho.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Essa é a minha deixa, literalmente


O carro me espera lá fora, mas eu não tenho vontade ir até lá. Sinto-me insegura, errada e cheia de incertezas, com duplo sentido, mesmo. Hoje sei que sou, de fato, uma camaleoa, como você sempre disse; mudo de cor, me camuflo, fujo dos predadores. Neste dia nublado de abril, o predador é você, e eu, a vilã - percebe? Nesta noite nefasta, quero mudar o cenário, fazer-nos protagonistas benignos, pôr margarinas e jasmins onde há vestígios de tristeza. Peço, imploro: rapte-me, capte-me, sequestre-me em segredo; eu me adapto aos ambientes, me encaixo nos estereótipos, me acostumo até com o que soa inconveniente! Só não me entregue assim, de mão beijada, o benefício da escolha, pois sou medrosa e me escondo atrás da própria sombra. Pensei que você soubesse disso, pensei que fosse se prevenir!...
O primeiro som da buzina ressoa inaudível, catuca minhas feridas e me enraivece. Pego uma miniatura de espelho dentro da bolsa e fito meu reflexo repugnante: a face de uma fujona. Aliais, vejo nele uns traços desprezíveis de uma mulher que nem a fuga permite-se arriscar. Apenas padece num canto, trajada como uma princesa, com um buquê de rosas que cheiram a emboscada nas mãos, esperando a lua escalar o céu escuro, esperando sua ligação se completar.
Enquanto me martirizo, imagino você em pé no altar, aguardando a chegada de uma noiva que não te ama com a mesma intensidade, balançando os pés e fingindo não estar nervoso. Eu sei que você sempre soube que esse momento chegaria, que, na hora mais crítica, eu mostraria o monstro de pessoa que sou, abandonaria o homem que me dedicou tanta sinceridade e o trocaria por um livro na suposta "noite mais especial de nossas vidas". Eu imagino seus pais aflitos, o padre entendiado, os músicos estressados. Tenho quase certeza de você os fez decorar a minha música favorita, e de que, no lugar da canção clássica de cerimônias matrimoniais, ela ressoaria pela igreja quando o meu espetacular desfile começasse. Eu posso me ver caminhando em sua direção, sobre um longo tapete vermelho... Vejo nossos olhos se encontrando e as pessoas se surpreendendo ao constatarem a beleza de nossa frágil compatibilidade. Não é triste, definitivamente não, mas também não é feliz, e então...
O som da buzina volta a perturbar os meus ouvidos. Puta que me pariu, motorista! Você não percebe que não estou pronta para ir? Que talvez nunca esteja? Eu grito, mas sei que ele não me ouve - e talvez o faça somente por isso...
Ah, meu anjo, agora eu percebo: nós não nos merecemos. Eu sou tola demais, enquanto você é bondoso, gentil e leal. Você merece uma mulher que só diga sim quando tiver certeza, que enfrente os medos e não tema os pesadelos; merece alguém que te ame mais do que a própria vida, que deseje pôr uma aliança de ouro em seu dedo perante a todos, que sonhe em ter filhos e pense, de antemão, nas possibilidades de seus nomes: Anita, Ana Beatriz, Sol, Marcus, Pedro, Thiago. Quanto a mim, mereço uns livros, um cafezinho com adoçante, uma passagem de ida para Marrocos, talvez.
Daqui onde estou - da sala vazia do meu apartamento - sinto que você quer me ligar. Está com o telefone nas mãos e o dedo pressionando os números do teclado, mas nós dois sabemos que você não vai fazê-lo, pois também me vê e sabe o que vai acontecer. Seus olhos são incapazes de se encherem de lágrimas (você estava preparado para esse momento) e minha falta não te surpreende. Você respira, suspira, pensa em como se desculpar com os convidados, mas por dentro está pouco se importando com eles - eu sei.
Também não me importa o quão majestoso pareça meu vestido, o quanto encantadora sejam essas pérolas costuradas à mão ou com o que eu pareça fisicamente. Por dentro me rasgo, me desfaço, me transformo em cacos de vidro, firo a própria alma e torço para que você esteja bem. Sei que a culpa é minha - dessa mulher com espírito de menina imatura que não sabe acatar suas decisões e acha que sempre dá para voltar atrás. Sei que faço injustiça e ajo como alguém sem sentimentos, sei de tudo, e me desculpe, me perdoe, por favor.
Hoje é uma noite infortuna, uma noite para pensar. E pensando, confesso que assusta-me um pouco essa nossa ligação, a forma como nossas mentes se conectam, a dimensão do sentimento que nos faz amantes. Pensando, lembro-me de quando folheamos um livro no chão da livraria e destacamos um parágrafo que dizia algo como "nossas escolhas refletem quem somos, e escolhemos, sempre, o que nos parece mais valioso".
Hoje sinto que não escolherei você...
Mas apesar disso, apesar de aqui e agora eu oficializar o começo do nosso fim, me faz último e simples favor? Chama um táxi, vá para casa, fiquei debaixo do chuveiro e tome consciência do quão maravilhoso você foi para mim. Não chore feridas aparentemente incuráveis nem mergulhe nos textos suicidas que fingíamos escrever. Se não quiser vir agora, tudo bem, venha depois, só saia daí, onde cheira a traição, onde a espera por uma mulher indecisa prevalece eternamente, onde os móveis começam a empoeirar. Faz favor, pelo nosso pseudo-amor? Vá ser feliz, pois te amo, te desejo bem e nunca quis fazer mal. Eu juro por tudo nessa vida, nunca alimentei a pretensão de levar decepções a você, nunca quis que uma lágrima sequer escorresse pelo seu rosto nem que eu quebrasse seu coração bondoso.
Ah, querido, reafirmo, amo você de uma forma que nem eu consigo entender. Almejo sua felicidade, seu sucesso, seu progresso como o homem maravilhoso que é. Por isso continuo aqui, escrevendo nuns pedaços de papel, amarrotando o vestido de noiva mais bonito do mundo, enquanto o motorista buzina, enquanto o tempo caminha devagar.
[Horas depois, uma mensagem.
De: você
Para: mim
"Está tudo bem", é o que diz.]
Sinto vontade de chorar.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Um pedaço da noite da menina francesa


Nessa noite não fazia frio.
A menina estava com os cabelos secos. Algumas mechas caíam sobre seu rosto inclinado, outras se arrumavam atrás das orelhas.
Ela lia a página 221 de um livro que não era seu. Não guardava sequer vestígios de culpa em seu corpo, pois se julgava merecedora de tal posse; os verdadeiros donos não sabiam e nunca souberam, mesmo vinte anos depois, que os espaços vazios que se faziam notados nas prateleiras haviam sido preenchidos numa outrora.
As páginas exalavam a fragrância de papel intocado, pouquíssimo folheado. Ambos sabiam que ele, o livro, nunca havia sido tocado com tamanha intensidade, e que os segredos aprisionados nas folhas jamais seriam desejados assim, com tanta veemência novamente.
A menina era a meteorologista.
Previsão do dia: nada.
O sol já havia partido e uma nuvem negra gigantesca se erguia sobre a pequena cidade francesa - aquela, onde havia uma praça à la francesa, com bancos franceses e postes de luz franceses, também.
A menina lia, lia, lia. Às vezes, parava para refletir sobre um parágrafo marcante e observava as pessoas que percorriam a rua - rua que era francesa, por sinal - vestindo casacos pesados e reclamando da temperatura baixa.
Gozado que fizesse tanto frio alí fora e, dentro da menina, tanto calor.
O livro parecia vivo e confortável no colo da menina, e nos ouvidos dela, duas perguntas sussurradas:
”- Hans Hubermann? O senhor ainda toca acordeão?”
A história era boa, muito, muito boa. A menina mergulhava nela, aspirava-a, sentia-a, embebedava-se dela e roubava-a para si. Assim, totalmente inebriada, se encantava em cada canto e continuava lendo, página após página.
O livro da menina ladra era branco e vestia um título pintado com letras vermelhas caligrafadas. Não fazia o tipo chamativo, mas era grosso - devia ter umas 500, talvez 520 páginas - e se encaixava perfeitamente nas mãos de sua dona.
A lua escalava o céu e a menina continuava lendo. O nome dela, ninguém sabia. O que ela fazia, esperava por um rapaz.
Ele chegava. Sentava ao lado dela (no banco francês) e pensava em maneiras de interromper sua leitura, sem parecer insensível ou atroz - qualidades que ele definitivamente não tinha.
Ao rapaz podiam ser dedicadas um punhado de definições, mas nenhuma parecia lhe caber perfeitamente. Também era jovem e alguns pelos lhe apontavam o protótipo de barba. Tinha a voz tranquila, um par de íris escuras, mãos calejadas e alma de poeta-aprendiz.
Resolvia esperar. A noite dos dois era longa, eterna, e não havia motivo para pressa.
Quelle heure est-il? - Ela perguntou. - Que horas são?
- Seis para as oito.
Um pequeno pensamento secreto se formava na cabeça da menina quando ele falava: os lábios dele a assombravam.
Uma pequena observação era feita na cabeça do rapaz: a lua é branca, mas dá pra ver umas manchas negras quase imperceptíveis, se espremer os olhos como um vovô míope.
- Hoje, o que tu tens? - Indagou a menina.
- Dois biscoitos de chocolate, uma mentira para contar.
Um momento de silêncio.
- Soa bom.
Então, trocas.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Trocas num banco francês

A meteorologia era inútil.

O temporal havia chegado com força e fazia daquele dia, um dia molhado.
Ao menos na França, as pessoas se importavam. Recolhiam-se dentro de suas casas, arrumavam as camas e dormiam, com um copo de chocolate quente sobre a mesinha de cabeceira e mantas para aquecer os corpos tão gélidos.
As pessoas, menos uma menina. Ela mal notava, pois vivia molhada; a chuva morava dentro dela e não respeitava o céu exterior, mas os sentimentos sóbrios e sombrios de uma humana peculiar.
Na terra enlameada, poucas pegadas. As flores afundavam, morriam sufocadas, e os pássaros buscavam abrigos em árvores viçosas.
A rua era perturbada pelo barulho da chuva e só. A rua estava vazia, exceto por algo, por alguém.
Uma menina carregava um livro roubado debaixo do braço e tentava protegê-lo com suas vestes ensopadas. Fracassava, mas se mantinha entretida enquanto presa à espera de um rapaz. Sentava no banco. Brincava com mechas de cabelo.
Apenas a menina ladra de poesias não se importava em esperar. Aprendera, com um de seus livros favoritos, que a paciência era uma dádiva a ser conquistada e mantida, e que, depois de realizar tais proezas, o direito usufruí-la cabia ao vencedor.
Em sua mente, filosofias infantis nasciam, cresciam, desfaleciam e assistiam ao próprio enterro. A Morte vinha buscá-las, sob um manto negro e espesso, e recolhia suas almas sem deixar vestígios de presença - ou ausência.
Uma vontade danada de descrevê-la, mas, subitamente, perda de palavras, de definições palpáveis...
A menina era munida de poucos anos físicos, tinha uma pele macia ao tato e um sorriso amistoso, com dentes ligeiramente tortos. O corpo era miúdo, frágil, e os pulsos pareciam galhos vulneráveis, facilmente quebráveis. Seus cabelos negros e ondulados grudavam no rosto, mas ela nem se dava ao trabalho de prendê-los.
Uma silhueta humana podia ser notada, ao longe.
Era um rapaz - o rapaz. Caminhava sob a chuva com calmaria invejável e mantinha o olhar fixo na menina roubadora.
Sentou-se ao lado dela. Suspirou. Olhou para cima.
- Belle couleurle ciel - Ele reparou. - Cor bonita, a do céu.
Pensaram.
- Há recitais sob o seu paletó?
Um meio sorriso.
- Como o combinado.
Sentiram os respingos baterem em seus corpos apáticos. A troca alí seria feita: os poemas de um pelos doutro, um vislumbre de um livro roubado por um pedaço de pergaminho, duas fatias de pão dormido por histórias.
Cor gozada, de fato, afirmou para si mesma.
Entre tantas possíveis, uma pequena observação: quando chovia, a cidade se calava, e a luz que excedia das lamparinas se fazia insuficiente.
Menos para eles. Não na noite do encontro, das trocas.
- A chuva também caí aí, moço?
- Sou feito dela.
Reflexões.
- C'est quoi ce bordel, hein!? - Ela disse. - Mas que merda.

domingo, 16 de outubro de 2011

Sempre sou a primeira a chorar


Motivos para isso são os tais:
Tenho mania de alinhar-me na frente no tabuleiro preto e branco, fazer-me cavalo de madeira e defender os reis de um jogo de xadrez metafórico.
Não resisto; ouço músicas tristes - confortantes, mas tristes - e sinto-as com corpo, mente, alma, pulmão.
Durmo depois de todos sonharem, fantasio, personifico meus medos e apelos nas sombras feitas por cortinas que tremulam e dançam conforme a brisa gélida avança pela noite.
Gosto do ato de chorar em si.
Chorar faz-me bem, de forma que concede-me um prazer ligeiramente infantil. Não tão simplesmente gosto, mas amo, me liberto, crio asas e voo alto.
Carrego dentro de mim um coração frágil, que derrete como gelo sob sol, desfaz-se na penumbra da solidão e pesa, de tão bom que é.
Um pedaço de minh’alma é feito de confusões, diferentemente das outras pessoas - também por isso, choro. Elas, não.
Num outro pedaço da mesma alma guardo sentimentos complexos e divergentes entre si - o que deixa-me triste, faz-me desatar em doces lágrimas, como rio, não mar.
Eu sigo remando num oceano inconstante e amando sem os limites do horizonte, acumulando decepções e, vez ou outra, acrescentando à coleção mais um motivo para ser feliz.
De felicidade, eu também choro.
Eu não apenas choro, mas transbordo sentimentos intangíveis, codifico fórmulas complexíssimas e ponho, na espreita, gotas de uma dose e meia de mim, metamorfoseando-me em alguém inteiro - mesmo que provisoriamente.
A nostalgia vive em mim, servindo-me como uma infeliz companheira. E nostalgia gosta de ver, em meu rosto, as doces lágrimas sobre quais já falei: são do rio, não do mar.
As expectativas que as pessoas criam e lançam sobre mim fazem minhas costas doerem.
De dor, eu também choro.
Tenho qualidades de poetisa, e poetisas sempre são as primeiras a chorar.
Tudo o que cultivo cai por terra, até as flores mais cheirosas, até os frutos mais suculentos.
Eu sinto muito, de verdade - em todos os sentidos possíveis.
Eu sou eu, e é simples assim.

No mundo, há:


Dois homens que fazem tranças nos cabelos e buscam água no deserto de suas vidas, pólen para suas margaridas, ondas para soprarem música de mar em seus ouvidos.
Gente que não crê na imensidão do amor, se recusa a gritar e cantar a letra de uma boa música, faz as malas, desfaz a vida, foge, abandona, morre.
Rostos que vivem sem rostos, cobertos apenas por pele, músculos e meio sorrisos.
Aqueles que compram rosas de plástico (ao invés de cultivá-las na terra com minhocas e espinhos) para que, assim, não desfaleçam, mas falecem, admirando a artificialidade irreal de uma produção de pureza intangível.
Uma moça que prefere “ter aquela velha opinião formada sobre tudo a ser uma metamorfose ambulante”.
Sete crianças que brincam de amarelinha com pedaços de giz roubados na escola, morrem um pouco, todos os dias, mas sobrevivem as mortes como fênix, renascendo das cinzas, metaforizando-se.
Três gatos com pelagem negra que moram num beco da rua, passam por baixo de escadas e encontram comida sob um pedaço de jornal rasgado. Depois comem e ronronam, satisfeitos.
Pessoas que carregam livros e fazem deles um potente aquecedor para as noites frias de primavera, almofada para pôr sob a cabeça (quando as penas da cama parecem feitas de pedra), cobertor, amor, cheiro, fruto, árvore, estrela etc. 
Uma estranha que pensa fazer poesia - amadora, imagine só - mas só distrai a alma com palavras que, soam belas para os apreciadores de dicionário e inertes para os falsos amantes.

Sobre vida e sobre mim, sobretudo


Eu aprendi com essa vida insolente que coração de gente frágil caí por terra e desaba ensanguentado, sabe? Estilo espetáculo de terror. Sabichona como sou, resolvi fincar os pés em minha própria alma, com o único e benigno propósito de não me perder por entre braços e olhos, tiros no escuro, medo e escuridão. Ignorei completamente os ensinamentos de gente letrada em faculdade cinco estrelas porque entendi, de tão súbito, que enquanto o sinal está aberto e as crianças correm, literatura faz pouco sentido. Mas não largo meu amor pela mesma. Leio, aprendo, ouço, anoto e escrevo, pois faz-me sentir-me mais completa, como um recipiente de vidro transbordando, prestes a estilhaçar em mil pedaços, com mil cores e mil formatos.
Eu acordei às quatro horas da manhã e, refletido no espelho, vi uma peônia delicada, formosa em cada pétala, ao invés da moça bagunçada, pendulando entre a linha da vida e morte - tal era eu. Notei minha mania inconveniente, como amante da poesia, de escrever sobre flores, mas não pude obrigar-me a largá-la assim, pois é pura e sincera a menção carinhosa de tais beldades. Você, querido leitor que tenta decifrar-me nesse momento, consegue entender-me? Gosto de escrever e usar, em minhas singelas composições frásicas, metáforas e traços poéticos, para que as palavras tenham um efeito profundo, duradouro - e é simples, assim.
Eu também aprendi que as músicas antigas trazem sensações nostálgicas e delas devemos fugir, pois torturam sem deixar marcas ou vestígios explicativos. Hoje, meus professores são esses acasos ao avesso que esbarram em meu braço e não se desculpam pelo transtorno. Minha fonte inesgotável de combustível são os livros que carrego, é a chuva, os raios solares e a paixão por essa escrita incompreensível inundada de tangentes. E a vida, é claro, que transforma-se, espertamente, em mais que presente.
Eu aprendi, cansei, canso. Procuro alcançar verdades apalpáveis mas canso, retiro os sapatos, corro descalça. Se você, querido apreciador de palavras alheias, quer continuar tomando doses de mim, revelo, te conto, mostro como sou.
Chovo junto com a chuva, purifico, hidrato, rejuvenesço. Escuto a música e ela é tão boa que a vida acaba, se cala para ouvir, paralisa os segundos, os semáforos, os vendavais; mas a morte não existe. Eu deixo-me dominar por surtos de inspirações danados à beça, que pegam-me de supetão e burlam a hora marcada. Abrigo num corpo tão pequeno sentimentos opostos, vontades insanas e lágrimas que parecem sorrir, tão zombeteiras. Aí vou me perdendo na busca por mim mesma, por respostas para perguntas ainda não formuladas e textos para por pontos de interrogações aleatórios. Meu maior desejo é morar numa casa sem teto com paredes de vidro, bem longe, em lugar nenhum, para que as estrelas cubram cimento e eu possa acordar com os primeiros raios da manhã. Não quero proteção, quero céu, cor azul, fragrância das flores, brisa gélida e inspiração para singelos poemas escritos em prosa. Eu fascino-me com as cores cuja nome não faço ideia, envolvo-me com livros de todos os gêneros possíveis e vivo vidas que não são minhas. Personifico papel, sinos e estações, porque sei que eles também respiram; o som, porém, é silencioso e imperceptível, já que não há narina, apenas essência. Disseram-me que branca mesmo era a tez da manhã, e agora meus olhos escuros almejam um contraste ao acaso. Se paz sem voz não é paz, mas medo, então grito, expulso sentimentos parasitas, faço-me trator e demulo a mobília, tanto real quanto metafórica. Não evito, não controlo, apenas chovo junto com a chuva, purifico, hidrato, rejuvenesço, porque sou corpo humano com alma de flor. Flor daquelas que se desfazem com o vento e precisam de amor para brotarem, mas sempre caem por terra nos mal-me-quer, bem-me-quer. Flor do tipo que guarda uma fragrância misteriosa e entrega a alma para poetas que fazem delas uma obra de arte. Eu sou eu porque não sei ser outro alguém, e aí confundo, baralho conceitos e sentimentos como se eles fossem rei e rainha de copas. Eu corro, eu fujo, me afasto e deixo uma carta sobre a cômoda: “Dessa vez, talvez não volte”. Verbalizo sensações e pedaços que cato de mim mesma, faço reconstruções dos meus castelos e masmorras, tento seguir um protótipo de “humano ideal” mas me perco. Acho, inclusive, que essa é a grande verdade da minha vida.
Eu me perco...

Curto Guia Básico: como contemplar o silêncio e passos primordiais


Introdução
O “Curto Guia Básico: como contemplar o silêncio e passos primordiais” foi escrito num curto espaço de tempo com a principal intenção de levar os leitores aprendizes à um estado de sensibilidade grande o suficiente para que os mesmos possam perceber e aceitar percepções novas, diferentes, radicais e positivas em suas vidas. O silêncio é, muitas vezes, interpretado erroneamente, e esse pequeno guia tenta consertar alguns significados e transformar os protótipos de sentimentos concretos em algo mais verdadeiro - e tão consistente quanto.
Aquecimento
Primeiramente, devemos aprender a ler, codificar e interpretar as metáforas que se espalham pelo Guia. Para conseguir realizar tal proeza, é necessário que o leitor esqueça que paredes sustentam a mobília e o teto protegem, que fujam do senso comum e, literalmente, deem asas à imaginação, trabalhando a mente para que ela voe.
Muita calma, não há porque ter pressa; o processo de libertação da criatividade não é rápido, tampouco fácil.
Depois, Devemos procurar entender o significado de “contemplar”.
contemplar -v. tr.
1. Olhar muito tempo e com atenção.
2. Dar a; doar a; fazer mercê a.
3. Meditar em, considerar.v. pron.
4. Mirar-se; olhar para si.v. intr.
5. Meditar profundamente.
Se nos concentrarmos nas duas últimas definições, iremos para o estado de contemplação do silêncio com meio caminho andado.
Agora, devemos ter noções básicas sobre o que “silêncio” quer dizer. Eis aqui algumas definições precisas:


silêncio 

(latim silentium, -iis. m.
1. Estado de quem se abstém ou pára  de falar.
2. Cessação de ruído.
3. Interrupção de correspondência ou de comunicação.
4. Omissão de uma explicação.
5. Sossego, quietude, calma.
6. Segrego, sigilo.
Esses exemplos retirados do dicionário são fácies de compreender, mas o Guia prefere definir à sua maneira: silêncio é mais que ausência de som, é balanço invisível que pendula entre dois ou mais objetos/seres (mortos ou vivos), é paz gritante, pseudo-calmaria.
A contemplação do silêncio é algo que necessita de esforço, dedicação e - é claro - amor à arte. Muitos não-poetas são capazes de alcançá-la, mas apenas quando mergulhados na tristeza (no sentido figurado) ou completamente entregues a amplitude dos sentimentos e sensibilidade da percepção. Em várias ocasiões, para fazê-lo, é necessário que o contemplador feche os olhos, esvazie o corpo e a alma e sinta, tanto dentro quanto fora de si, a forma mais pura do silêncio.
Os passos primordiais
1.1. Caso você seja um iniciante, faça silêncio. Isso significa que você deve parar de falar e ouvir músicas, fechar a janela, desligar os aparelhos eletrônicos emissores de som, se desconectar do mundo etc.
Os aprendizes, na maior parte das vezes, não são capazes de sentir a forma de silêncio avançada, que pode ser encontrada nos lugares mais barulhentos possíveis.
1.2. Se você não for um iniciante, tem duas opções: fazer silêncio (como diz o item 1.1 do Guia) ou fechar os olhos, caçar um pedaço de paz dentro de si e expandi-lo, até que todo o seu ser esteja envolto por uma camada invisível de tranquilidade e calmaria.
2.0. Procure sentir. Talvez você consiga sentir o vazio, a solidão ou alguma outra sensação incômoda, talvez você encontre, no meio dessa paz gritante, um vestígio de felicidade, tristeza, nostalgia, raiva, desespero etc. Varia de contemplador para contemplador.
Algumas pessoas dizem não sentir nada. Nesse caso, das duas, uma: ou ela não respeitou o aquecimento do Guia, ou acha que contemplar o silêncio é tão bobo, fácil e desnecessário, que tenta fazê-lo sem acreditar que pode ser incrível.
3.0. Agora que você provou de sensações variáveis e, sobretudo, do silêncio, contemple-o. Inale-o, admire-o, seja amiga (o) dele.
4.0. Não tenha vergonha de si. Contemplar o silêncio é uma tarefa opcional que nem todos conseguem ou gostam cumprir.
Finalização
O Guia parabeniza aqueles que leram (mesmo que não tenham tentado cumprir com sua proposta) e agradece pela paciência de todos, ainda que, muito provavelmente, o Guia não vá receber prestígio de ninguém.
Faça uma boa contemplação do silêncio!

Um breve relato de uma distribuidora de flores


Eu distribuo flores até para quem não aprecia a arte da jardinagem, até para quem diz ter o coração feito de pedras e farpas, até para quem eu sei que irá agradecer e jogar fora. Não me importo com o suposto trabalho, pois sou a favor da proliferação das fragrâncias gostosas, do compartilhamento das sensações agradáveis que transbordam de pétalas, poemas, discos de vinil. Ver que brota, em algumas pessoas, o interesse pelos mesmos me compensa, pois aí a arte cresce e o mundo muda um pouquinho. Não canso de viver no meio da ilógica taciturnidade do que é “mudar vidas”, gosto de aprender, refletir, criticar, e me satisfaço, como pessoa, quando chego a alguma conclusão. É, não quero mudar de assunto, mas também sinto que estou mudando; volta e meia, me vejo sendo contra o que antes apoiava com todos os fios de cabelo ou reescrevendo textos que, antes mesmo de ontem, eu jugava como protótipos da perfeição. Sou amadora, cometo erros gramaticais em minhas composições frásicas e, vez ou outra, apago tudo para recomeçar. Mesmo que nem todos concordem, expresso e afirmo não achar que gramática seja tudo. Para mim - uma pseudo-poetisa, aprendiz de beija-flor - o que importa, de verdade, é que esse desejo insaciável de fazer o mundo enxergar brilhantes obviedades nunca se perca, nunca se permita calar.
Com toda a sinceridade do mundo, revelo: acho que todas as pessoas deveriam distribuir flores, também. Flores em vasos cheios de terra, com uma ou duas minhocas e uma casca de banana para adubar e fazê-las florescer com vivacidade e bom humor. Assim, haveriam trocas de vasos (já que todos iriam doar e ganhar em grande quantidade, mas sem a pretensão de dar para receber) e as pessoas poderiam ter, dentro de suas casas, grandes jardins. Cuidar de jardim é terapia, sabe? Relaxa, ensina, tranquiliza, embeleza…
Sei que fujo um pouco da realidade, mas não me envergonho de meus sonhos. Sei que, um dia, quando eu acordar e for à padaria comprar meia dúzia de pães, verei, com os meus próprios olhos, essa distribuição de flores da qual tanto falo. Enquanto isso não acontece com o mundo inteiro, me contento em fazer a minha parte. E assim, aos pouquinhos, amoleço um ou dois corações amigáveis e satisfaço-me como distribuidora que sou.

Um pouco da menina dos cabelos verdes


A menina dos cabelos verdes vive cercada por sensações nostálgicas, pessoas vazias, repertórios enjoativos e vontade de pintar os cabelos. Ela inventa penteados, relê livros e muda a estação da rádio, mas continua incomodada consigo mesma e com sentimentos tão inexplicáveis que só fazem perturbar a sanidade da menina dos cabelos verdes. Os olhos dela são castanho-escuro e, enquanto choram, mostram que alí dentro (mais para a íris, talvez) há um bocado de sorrisos ansiosos, presos à espreita, almejando fisgar a oportunidade libertadora. Os seus braços finos trabalham carregando, satisfeitos, o peso dos livros de um lado para o outro, entre cidades e países, e as pernas trocam passos com a solidão, brincando de pular amarelinha, como crianças no jardim de infância.
Ah, a menina dos cabelos verdes pensa demais. “Se ela antes soubesse que a saudade fere como adaga em pele frágil, poderia ter queimado fotos, posto pedras em nascentes de rios, evitado iluminar os olhos vermelhos com a mais genuína felicidade. Talvez não arriscasse, não sorrisse, não caísse na armadilha da vida nem fizesse dela mesma uma eterna prisoneira do passado - então aí, quem sabe, pudesse guardar em si uma tristeza mais amena, quase feliz…”
Hoje, a menina dos cabelos verdes acorda e não vê reflexo no espelho, pois não procura, recua. Sabe que as lembranças personificam-se em madrastas cruéis e castigam sem razão, que os cabelos verdes não parecem ter a cor verde, mas o tom de amarelo envelhecido - aquele que cobre papel antigo e traz cheiro de tempo - e que os defeitos alheios se eternizaram. Mas sem sombra de dúvidas os defeitos são encantadores e especiais, apenas não o suficiente para emergir a sociedade do mar de ignorância.
Então, a menina dos olhos cor castanho-escuro escreve, escreve, escreve, e faz da arte da escrita uma apologia ao céu, às flores, à poesia oculta. Sabe que os papéis são seu espelho, as palavras, um reflexo sabichão e o resultado, uma réplica de si mesma, gozada tamanha exatidão.
Que seja.
No final das contas, nada importa, pois a menina dos cabelos verdes só quer pintar os seus cabelos.

Curto diálogo entre opostos


- Minha vida feita rio sem pudor segue um torto percurso e desagua em solidão, e talvez por isso eu prefira impor pedras e construir muralhas que contenham toda essa água inconsequente.
- Minha vida feita vendaval inocente destrói, arranca, machuca e recomeça, tão ilesa, tão sórdida… E talvez por isso eu desfaça os laços que me envolvem nas pessoas e crie expectativas vãs.
- Não vejo diferença entre elas, entre nós.
- Como não vê? Você teme a solidão e eu procuro-a loucamente em todos os cantos, becos e armarinhos, até nos trilhos de trem…
- Nós apenas queremos nos achar, e nossas vidas refletem essa necessidade urgente e ansiosa de nos aconchegar dentro dos próprios peitos, entende?
- Será que essas idealizações nefastas se fazem conforto e remédio para nós? E que nossas conclusões antes tão certeiras agora não passam de ilusões?
- Talvez sim, talvez não.
- Ah, por favor, não me venha com esses seus “talvez”; a incerteza é faca afiada invisível e me atinge como música triste em dias chuvosos.
- Não creio que em dia chuvosos você feche sua janela, tranque a porta do quarto e faça de prisões a mente e mobília. Pois nesses mesmos dias eu fujo de casa sem guarda-chuva e deixo as gotas gélidas acariciarem meu rosto cansado, rejuvenescendo-me, transformando-me em água e tão somente água.
- Tranco-me porque gosto, satisfaço-me, lembra? Solidão é amiga, é veneno e cura, e sua compania faz-me bem.
- Quanto desperdício de vida!
- Pois para mim vida e morte são irmãs gêmeas.
- A morte não existe, tampouco o fim, e a vida… A vida é tão viva, tão real, viciante como dose infinita; e me orgulho revelar que de overdose eu quase morri; só não o fiz porque morte não existe, tampouco o fim, e a vida…
- Certo, chega de metáforas baratas e filosofias de botequim. Pegue sua inspiração tola, traduza-a na máquina de escrever e permita-me carregar nos braços Solidão que descrevi. Minha felicidade está aqui, nesse contato imaginário e personificado, e ainda que você não compreenda, não tem direito de interferir. Lembra da vida que falei? Do vendaval, da destruição, dos recomeços? Pois agora faço-me refém e vivo uma morte injusta e sagaz.
- Como você quiser. Não quero interferir, afinal, que direito tem eu, humano tão julgável, perdido e comum? Minha felicidade é diferente da sua, pois encontro-a nos beijos angelicais, na compania dos sábios, na fragrância de marisia, nos raios do sol. Lembra da vida que falei? Do rio, das águas, das muralhas? Então, agora faço-me barco sem porto, sem rumo, sem vela, e navego até o fim… Adeus, se cuide.

Uns feitos e seus efeitos


Eu liguei o rádio em qualquer estação, pus-me de pé e dancei feito vento manso em dia nublado. Armei-me com sorrisos, pés descalços, mente aberta, músicas antigas, lembranças felizes de um passado que paira cabisbaixo e perspectivas de um futuro esperançoso. Deixei a poesia vir morar junto, dividir café e aluguel de apartamento, expandir meu coração saltitante, transformar-me mais em mim. Busquei fertilizantes para minha cabeça, arrisquei meias palavras nuns rascunhos inocentes e entreguei minh’alma àqueles anjos da guarda que narravam-me histórias de epopeias. Andei pelo mundo com os olhos fechados, admirei praças e museus empoeirados, descobri cores que até hoje não sei o nome, transitei entre opostos e enxerguei meninos correndo em nuvens de fim de tarde. Cantei canções de ninar, livrei-me do protótipo de ilusão de cápsula protetora imposta por tudo e todos, fiz de “protótipo”, “poetisa” e “transbordante” minhas palavras favoritas, pintei branco em telas negras, materializei as metáforas mais confusas e não procurei por números ou dados, mas valores que compusessem minha identidade. Preenchi-me com livros, músicas, apelos a amores, fragrância de maresia e som de chuva em estação primaveril, busquei na paciência dos marinheiros um sábio adágio e concedi-me um ou dois segundos vazios. Preparei-me para você. Agora estou aqui.
Então diga-me, por favor, quantos mal-me-quer existem em uma flor. Não quero tentar a sorte e me decepcionar mais uma vez, pois agora qualquer empurrão me derruba, qualquer controvérsia me distrai. Preciso de certezas, de doses de amor que façam efeito, de drogarias que funcionem vinte e quatro horas, porque o remédio não é mais para dor de cabeça, mas dor de coração. Coração mole, frágil, deplorável, inclusive, que não aguenta ilusões perdidas e músicas tristes porque se desfaz em pó. O controle escapou da minha disposição; eu me movo e não vou à lugar nenhum, fujo em vão dessa areia movediça, procuro saídas nessa masmorra infinita e afundo, cada vez mais, em um oceano negro que escode-me a superfície. Então diga-me, eu imploro-lhe, quais são os riscos de aventurar sem medo nas histórias dos livros que você me deu? O protagonista tem seus traços, seu jeito, sua risada? Faz-me lembrá-lo? Porque você sabe, eu tenho essa mania inconsequente de viver os contos e amar meus pares românticos de forma platônica, feita que só eu sei. Meu cachorro morreu, meu porta-retratos se partiu, minha cama não conforta meu corpo, meu cobertor só cobre, mais nada. Estou com frio, dor, osteoporose na alma, atrofiamento de sentimentos e problemas graves com metáforas. Diz-me, não sente vontade de conceder-me abraços calorosos, carícias, afagos, aconchego? Ou apenas deixa-lhe satisfeito as minhas declarações tão tolas de amor infantil?
Tanto fez, tanto faz, eu sei. Hoje, parto; parto e recomeço...

Ela, flor de lis


Parecia uma flor de lis, toda delicada. E aquele dia, sem dúvidas, era.
Frio, gélido, rude.
Mas ela admirava a paisagem nebulosa ouvindo na rádio músicas altas, alegres, engraçadas, ainda que seus olhos descartassem lágrimas, ainda que o dia se mantivesse.
Frio, gélido, rude.
Dentro da cabeça dela, um pianista tocava e dançava, notas musicais surgiam e faziam festas. Dentro da cabeça dela, um mundo fantasioso e belo se escondia, flores brotavam sem terra nem pé e os feijões sobrevivam sobre pedaços úmidos de algodão. Não existia, dentro da cabeça dela, um sequer dia como esse.
Tão frio, gélido, rude.
Apenas sol agradável e estrelas brilhantes cercadas por vaga-lumes que a lua enamoravam. Apenas poetisas felizes, frutos sem caroços, amores sem poeira e doses anti-nostalgia. Porque a imaginação que vivia dentro da cabeça dela era infinita, ilimitada, doce e infantil, como abelhas, como neve. Mas essa neve era diferente da que preenchia aquele dia.
Frio, gélido, rude.
Ela não tinha nome, identidade ou cartão de crédito. Só a imaginação. Só aquele ar delicado. Só a semelhança com flores de lis. Só o que cabia dentro do coração frágil, quase como vidro.
E já era tudo.
Pois fazia dos dias.
Frios, gélidos, rudes.
Dias para levantar da cama bem cedo, ler um livro, ouvir músicas altas, admirar a paisagem.
E sorrir.

Adão,


meu doce amigo encantado, como anda essa sua vida de poeta? Bem, eu tô bem; continuo apoiando meu tronco nessas pernas que vez ou outra tremulam e adornando as palavras sem sentido que insisto em desenhar no papel. Também ando procurando, às cegas, um amigo para compartilhar meus feitos, minhas frustrações e meus sentimentos de menina ingênua, encontrando apenas ausências, vãos e poeira e lhe afirmando: não há nada mais frustrante ou decepcionante. Eu sei que não devo criar expectativas, mas, assim como você, sou feita de carne e osso, carrego um coração pesado, desesperado por doar-se à alguém ou entregar-se à um amante especial, além de um âmago vazio, vazio, irremediavelmente perdido. Por essas e outras tantas vim lhe escrever, já que você sempre terá tempo para sua pequena e faz questão de ler os devaneios infantis dessa que lhe fala.
Tenho sentido-me estranha. Parece que uma pequena poetisa está brotando dentro do meu peito, confortando-me e compreendendo-me, o que faz-me enaltecer. Ela gosta de tristeza, solidão, escuridão, nostalgia e angústia, já que, assim, clama pela inspiração, torna-se apta para escrever recitais belíssimos e puros como água cristalina. E o nó se deve ao fato de que, desses sentimentos, eu cobiço distância. Estou vivendo uma guerra interna, onde parte de mim deseja tornar-se a sensibilidade personificada, aceitar o destino solitário e padecer injuriada para sempre, com lápis, papel e tão simplesmente mais nada nas mãos, e a metade restante almeja sucumbir a ignorância e fazer-se, de alguma forma, feliz. Não consigo apostar em qual lado vencerá nem pôr um ponto final nessa história desgastante, pois agora sou resquício, sou escritora desvanecida tentada à ceder reticências. Então lhe pergunto: o que faço, Adão? Por favor, diga-me como desmanchar essa guerra sem sair ferida.
Ah, eu ando com tanta saudade de você… É triste saber que não compartilhamos ou compartilharemos fotos, porque sua beleza e magnitude não se prendem à papel, à imagem impressa, ao presente, ao momento, mas à eternidade divina e memorável; sei disso. Porém, você nunca mais fez visita em meus sonhos, deixou bilhete amassado com aquela caligrafia desenhada (que você e apenas você possui) nem veio acordar-me no meio da noite, quando os pesadelos sabotam meu protótipo de sono tranquilo. Para onde você foi, anjo meu? Bem, não importa, só volte logo, pois setembro está chegando e, com ele, a primavera - nossa estação favorita.
Agora, sinto-me bem. Não só por estar escrevendo para você mas também porque estou ouvindo o fascinante farfalhar das árvores. Sim, é fascinante, porque sucede a ventania sutil, cavilosa, ingênua e cria um som natural, até meio espontâneo, meio musical, que faz-se soar baixinho em meus tão cansados ouvidos. Sabe, Adão, se eu pudesse, permaneceria sob essas árvores tortuosas até que uma delas se levantasse, arrancasse as próprias raízes e me ordenasse voltar para casa (o que não deixaria de ser contraditório e retórico, já que considero esse canto como lar). Eu apenas me levantaria e deitaria novamente, para recomeçar a brincar com as folhas das figueiras e colher seus frutos para degustá-los quando o vento chegasse e o ciclo recomeçasse.
Sabe, Adão, esses dias têm me dado vontade de comer pizza.

Descobri que gosto dos finais felizes, dos infelizes, dos inesperados, dos eternos, dos marcantes, dos descartáveis, dos finais, enfim, assim, de forma geral. Talvez porque eu seja excessivamente curiosa, talvez porque as histórias infinitas deixam vazio incômodo e resquícios de ideias particulares não compartilhadas com o mundo dentro de mim. Bem, não importa - nunca importou -, mas muito me incomoda essa afeição, que têm feito-me refém da necessidade de pôr pontos finais em poemas - e, você sabe, poemas são eternas reticências. Mas não controlo, não há jeito; só faz-se restante repetir mansinho, ao pé do meu próprio ouvido, que os inícios são indiscutivelmente mais agradáveis, pois dão asas às possibilidades inventadas pela minha mente travessa. Eu repito, eu repito, eu repito.
E é aí que vem a vontade de comer pizza.


Tenho lido meus escritos singulares e descoberto que eu mudei muito. Você também, admita. Antigamente nós nos fazíamos opostos como sol e lua, agora estamos mais para outono e primavera personificados em almas desacorrentadas. Por que, Adão? Será que foram esses milhares de anos como aprendizes em planetas com mestres mascarados? Ou mesmo a quantidade numerosíssima de café descafeinado que tomamos? Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que prometemos não julgar o tempo como as outras pessoas; um sorriso, quinze anos, duas lágrimas, mais setenta, uma flor, menos quatro. Essa história de um ano para cada translação nunca nos passara de bobeira inadmissível, controle remoto sem fio, vigilância ilegal. E por isso somos tão velhos e jovens, ao mesmo tempo.
Às vezes concluo que só você gosta de mim, Adão, entende esses meus extremos incômodos, relances insanos, desejos asfixiados, inconstâncias frequentes e até mesmo a necessidade incontrolável de escrever sobre tudo o tempo todo. Ninguém mais parece me compreender ou esforçar-se para tal; mesmo eu guardo apenas suposições e punhados de “talvez”. Isso me angustia. Ah, como angustia!
Reparei que tenho ouvido músicas baixas e isso me assusta. Eu sempre gostei de ouvir a batida dentro do meu peito, de manter o volume mais alto possível e fazer-me não só parte dela, mas a própria música. Notei que agora eu deixo em casa as armas que carregava no bolso frontal porque não preciso mais me defender - nada me pode me atingir, eu sei, exceto eu mesma. Auferi o fato fatídico de que, mesmo que eu deseje, às vezes não consigo escrever. Indago-lhe, Adão: há nesse mundo impedimento mais injusto do que esse que concedem à escritora que sou? Não, não há. E essas e outras transformações chegaram tão ligeiras que não pude perceber: pareciam um vendaval, terremoto descontrolado vindo de dentro.
Será que mudei - nós mudamos - para sempre?
Mas sabe aquela pizza que eu estava lhe falando? Então, comi. Já percebi que, ultimamente, ando me privando da felicidade e paz que encontram-se nos verbos de conjugação irregular, e isso não têm sido, de forma alguma, bom para mim. Agora pareço dissipar meus dias mergulhada num cansaço (talvez causado pela sociedade e seu adorável consumo das minhas vãs reservas de energia) e submersa na mais pura e penosa nostalgia. Escasseei-me, Adão, mas quero-me cheia e inteira de volta.
Também percebi que tenho mania de escrever sobre o passado, das lembranças que fizeram-se eternas e machucam, do que costumávamos ser, das sensações que não me agradavam e ainda permanecem nesse abrigo invisível dentro de mim. Mas não consigo evitar, Adão, e nem eu compreendo o porque. Talvez você saiba - você sempre soube das minhas doenças, quando e como dopar-me com cura. Então, peço-lhe, diga-me, revele-me, reconstrua-me, cuide de mim.
E que você continue sendo assim, doce, leve, como o vento que lhe faz agrado e dobra as pontas desta carta manchada encontrada sobre seus dedos macios, mas calejados.
Com todo o amor do mundo,
sua pequena.

Diálogo entre amantes


- Querido anjo meu, peço licença para chamar-te assim e perdão por não resistir a esse costume austero; é que não vejo-te de outra forma que não com auréola e brilho ao redor, carregando no peito um conjunto de arco e flecha apontado diretamente para meu coração frágil. Eu tentei cair na tentação do sono eterno para que, nos sonhos, nós pudéssemos nos encontrar, ouvir serenatas e trocar afagos, mas parece que meu esforço tão árduo e ansioso foi em vão; tu não estavas lá, nem escondido atrás do belos ciprestes nem flutuando sobre as rosas silvestres que gostávamos de colher quando éramos apenas um. Eu procurei em todos os cantos, becos sem saídas e armarinhos, mas não encontrei sequer um sinal do teu semblante astuto, das pegadas que tu sempre deixas na terra enlameada. Vivi tempestades e pesadelos penosos só para encontrar-te, quebrei juramentos de evitar contemplar meu passado singular e concedi-te a permissão de envolver-me com tuas asas tão ríspidas, mas agora que não encontro teu reflexo ao lado do meu nos sinceros espelhos e sinto que tu só queres acalentar a ti próprio, preencho-me apenas de arrependimento e desejo poder acordar e fazer desse amor colorido uma farsa preta e branca. Mas não tenho escolha. E por não encontrar provas do teu amor, consumi-me por um desespero inconsequente; rasguei todas as cartas seladas com pedaços do teu coração e queimei as palavras que tu tão docemente dedicaste a mim. É que pena, tinta e pergaminho nunca supriram minha necessidade do teu afeto, da tua essência misturada a minha fragrância e do perfume cítrico capaz de transbordar do nosso plural. Mas eu encontrei. Enfim, num pedaço do paraíso esbarrei com as provas que meu lado inseguro tanto necessitava. E revelo a ti: agora eu vejo amor em todas as coisas; nas raízes das árvores mais sagazes que se entrelaçam e dão sustento a um verde cheio de esplendor, no brilho do olhar dos homens que se flertam às escuras, apaixonados, amedrontados, na sensação inusitada que dá na boca do estômago quando vejo a sombra do teu semblante se aproximando e nas mãos que de mansinho se entrelaçam as minhas. Eu vejo amor no teu toque, na tua mania de afastar da vista os fios de cabelo importunos e no timbre da voz rouca e sedutora que a ti pertence e insiste em adoçar meus ouvidos. Porque sou feita de amor, porque transbordo amor, porque respiro amor - cuja ar de amor também é feito. E por viver dele, cobiço ser amada com o mais belo, sincero e intenso de todos os amores, desejo ser tratada como a mais formosa poetisa e poder repousar em teus braços para sempre. Mas de provas encontradas ao acaso, de percepções, de amor inseguro ninguém vive, anjo meu, e te interpelo: o que tu fizeste por mim? Não sei se contigo compartilhei, mas os sacrifícios têm de partirem de ambos os lados. E agora, justo agora, depois de tanto blá blá blá, peço para que tu me digas a verdade ou desfaças esse laço que tu dizes nos prender…
- Doce senhora atrevida, parece até mesmo que não percebes o que guardo aqui comigo, pois tais asas que vistes, de certo estão valendo, já que são os meus braços a rodear teu corpo aflito. Eu atravessei certas nuvens, enfrentei tempestades para regressar ao nosso canto e repousar entre teus segredos que desvendei de forma audaciosa, insolente, só para ter à vista o reflexo do teu semblante. Alguns até me chamam de Gabriel, mas estes não importam, pois para ti sou tudo, até mesmo o mais insensato pecado. Que assim prossiga ao longo dos dias, eu cortando essas penas de incertezas que ofuscam o brilho do teu olhar, tu fitando meus olhos como se as íris carregassem a incumbência de proliferar nosso amor. Quando digo olhar, me refiro àquele que tanto primo, que estimo, que invade meus sonhos mais humanos entre asas angelicais. Eu soube que andas trovando meus segredos, dizendo ao mundo que queres liberdade, sem entenderes que sou um anjo caído. Abri mão da minha pureza para morrer de pecado em teus lábios e agora, justo agora, tu vens a dizer-me que deseja desfazer esse laço que nos prende? Pois minha calmaria, tu não podes, já pertences a esse anjo que te fala mansinho e de possessivo tem até os fios de cabelo cacheados. Minha sinfonia angelical, meu paraíso particular, dona dos resguardos das minhas mãos e das tempestuosas tentações, tu és deste pobre desgraçado que lutou contra legiões de soldados entre o céu e o inferno para dar continuidade a esse amor contigo. Liberte-se do mundo e acorrente-se a mim, entrelace nossas línguas, pois essa será tua algema e prisão, e não haverá pena mais deliciosa do que essa que dividirás comigo. Eu prometo, senhora dos meus olhos, parte da minha alma perdida, que te encherei de tanto amor que irás transbordar viciosamente, deixando escorrer pelo mundo essas gotas de nós dois. Não precisamos da eternidade, nem mesmo das santidades, pois nosso amor tornou-se prece, oração bem feita de fiéis entorpecidos e devotamente apaixonados. Olvidemos, então, meu amor, desse todo blá, blá, blá e passemos a cortejar essa divindade de nós dois…
- Meu anjo, pronunciando essas palavras mais doces que mel de favo das abelhas tu ganhas meu coração frágil, mas revelo-te que, apesar da beleza inusitada e incomensurável que reside em tua voz, tuas sílabas tônicas e desejo possessivo não são capazes de me prender. É que eu sou feita poetisa formosa e também tenho minhas asas escondidas sob essa pele humana e essência carnal, e, tão somente por tê-las, aprecio a liberdade do voo e me fascino com o plano das alturas. Eu almejo alcançar o ápice das montanhas e admirar o encanto que há na proximidade com o céu ao teu lado, mas tu me trazes para baixo e em cima é onde cobiço estar. Anjo meu, escute-me: para ter a mim em teus braços, tu deves largar esse jeito egoísta, pois também quero pertencer a amplitude da vida e ao infinito dos oceanos, já que meus limites se limitam à grandeza do inimaginável. As provas que eu desejava, tu me destes, e não me restam mais dúvidas quanto a veracidade do amor que tu nutres por mim. Nosso laço é indestrutível e nossa união a mais graciosa de todo o céu, mas temo ter de desatá-los caso tu tentes apertá-los até desfazê-los em pó. Agora sei que tudo o que fizeste por mim fora em nome do amor e que a poesia que transborda da sua fala é tão intensa que faz-se sentida dentro do meu peito. Agradeço, meu amado, agradeço e te digo com sinceridade inigualável que todo o tempo dedicado em tua busca valeu à pena, literalmente. Sei que não via teu reflexo no espelho porque tu nunca esteves ao meu lado e sim dentro de mim, residindo como lembrança boa em coração cansado de amar; e era fato, cansado de amar estávamos nós dois, mas tu continuaste com a tua busca e vieste ao meu encontro. Agora, tão somente agora, tenho consciência de que está escrito em algum pedaço da história que fomos feitos um para o outro, porque nos completamos como peças de quebra cabeça que, unidas, formam paisagem do encontro entre céu e mar. Eu abdicarei de muitas singularidades para que façamos de nossas vidas um esplêndido espetáculo em forma de plural, mas como já disse, tu também terás de livrar-nos das correntes usadas como prisão perpétua. Lembra-te? Os sacrifícios tem de partirem de ambos os lados… Então, o que me dizes, meu amor?
- Meu pôr do sol primaveril, tu és de fato tão bela que peco consumindo-te com o olhar. Desses sacrifícios que tu tanto falas eu bem entendo, pois por muitos tive de passar para chegar ao teu encalço e fitar-te as íris castanhas como faço bem agora. Se tu queres liberdade, liberdade darei-te; tudo para ver-te feliz, para admirar em teu rosto tão esbelto os traços do sorriso que ilumina como sol. Concederei-te o que puder até escassear-me, até meu ar, até minha vida, até minh’alma, com incomensurável bom grado, pois de nada vale esse anjo que contigo falas se não um semblante carnal que busca em todos os becos e livros de poesia uma forma de satisfazer tua formosa poetisa. Desculpe-me pelo egoísmo inocente e genuíno, é que jamais suportaria perdê-la para um alguém ou ver que outro é capaz de inundar-te com mais felicidade e embebedar-te com mais amor ingênuo do que eu. A ternura com qual trato-te é simplória e sincera, essa paixão cuja falo-te é cobiçada por bilhões de seres terrenos, então dê a elas o valor que fazem jus. Amo-te, minha flor, lírio encantado, talo de margarida, fragrância de marisia; amo-te e por amar-te assim tão intenso, entendo-te e quero-te até o fim dos tempos…