O carro me espera lá fora, mas eu não tenho vontade ir até lá. Sinto-me insegura, errada e cheia de incertezas, com duplo sentido, mesmo. Hoje sei que sou, de fato, uma camaleoa, como você sempre disse; mudo de cor, me camuflo, fujo dos predadores. Neste dia nublado de abril, o predador é você, e eu, a vilã - percebe? Nesta noite nefasta, quero mudar o cenário, fazer-nos protagonistas benignos, pôr margarinas e jasmins onde há vestígios de tristeza. Peço, imploro: rapte-me, capte-me, sequestre-me em segredo; eu me adapto aos ambientes, me encaixo nos estereótipos, me acostumo até com o que soa inconveniente! Só não me entregue assim, de mão beijada, o benefício da escolha, pois sou medrosa e me escondo atrás da própria sombra. Pensei que você soubesse disso, pensei que fosse se prevenir!...
O primeiro som da buzina ressoa inaudível, catuca minhas feridas e me enraivece. Pego uma miniatura de espelho dentro da bolsa e fito meu reflexo repugnante: a face de uma fujona. Aliais, vejo nele uns traços desprezíveis de uma mulher que nem a fuga permite-se arriscar. Apenas padece num canto, trajada como uma princesa, com um buquê de rosas que cheiram a emboscada nas mãos, esperando a lua escalar o céu escuro, esperando sua ligação se completar.
Enquanto me martirizo, imagino você em pé no altar, aguardando a chegada de uma noiva que não te ama com a mesma intensidade, balançando os pés e fingindo não estar nervoso. Eu sei que você sempre soube que esse momento chegaria, que, na hora mais crítica, eu mostraria o monstro de pessoa que sou, abandonaria o homem que me dedicou tanta sinceridade e o trocaria por um livro na suposta "noite mais especial de nossas vidas". Eu imagino seus pais aflitos, o padre entendiado, os músicos estressados. Tenho quase certeza de você os fez decorar a minha música favorita, e de que, no lugar da canção clássica de cerimônias matrimoniais, ela ressoaria pela igreja quando o meu espetacular desfile começasse. Eu posso me ver caminhando em sua direção, sobre um longo tapete vermelho... Vejo nossos olhos se encontrando e as pessoas se surpreendendo ao constatarem a beleza de nossa frágil compatibilidade. Não é triste, definitivamente não, mas também não é feliz, e então...
O som da buzina volta a perturbar os meus ouvidos. Puta que me pariu, motorista! Você não percebe que não estou pronta para ir? Que talvez nunca esteja? Eu grito, mas sei que ele não me ouve - e talvez o faça somente por isso...
Ah, meu anjo, agora eu percebo: nós não nos merecemos. Eu sou tola demais, enquanto você é bondoso, gentil e leal. Você merece uma mulher que só diga sim quando tiver certeza, que enfrente os medos e não tema os pesadelos; merece alguém que te ame mais do que a própria vida, que deseje pôr uma aliança de ouro em seu dedo perante a todos, que sonhe em ter filhos e pense, de antemão, nas possibilidades de seus nomes: Anita, Ana Beatriz, Sol, Marcus, Pedro, Thiago. Quanto a mim, mereço uns livros, um cafezinho com adoçante, uma passagem de ida para Marrocos, talvez.
Daqui onde estou - da sala vazia do meu apartamento - sinto que você quer me ligar. Está com o telefone nas mãos e o dedo pressionando os números do teclado, mas nós dois sabemos que você não vai fazê-lo, pois também me vê e sabe o que vai acontecer. Seus olhos são incapazes de se encherem de lágrimas (você estava preparado para esse momento) e minha falta não te surpreende. Você respira, suspira, pensa em como se desculpar com os convidados, mas por dentro está pouco se importando com eles - eu sei.
Também não me importa o quão majestoso pareça meu vestido, o quanto encantadora sejam essas pérolas costuradas à mão ou com o que eu pareça fisicamente. Por dentro me rasgo, me desfaço, me transformo em cacos de vidro, firo a própria alma e torço para que você esteja bem. Sei que a culpa é minha - dessa mulher com espírito de menina imatura que não sabe acatar suas decisões e acha que sempre dá para voltar atrás. Sei que faço injustiça e ajo como alguém sem sentimentos, sei de tudo, e me desculpe, me perdoe, por favor.
Hoje é uma noite infortuna, uma noite para pensar. E pensando, confesso que assusta-me um pouco essa nossa ligação, a forma como nossas mentes se conectam, a dimensão do sentimento que nos faz amantes. Pensando, lembro-me de quando folheamos um livro no chão da livraria e destacamos um parágrafo que dizia algo como "nossas escolhas refletem quem somos, e escolhemos, sempre, o que nos parece mais valioso".
Hoje sinto que não escolherei você...
Mas apesar disso, apesar de aqui e agora eu oficializar o começo do nosso fim, me faz último e simples favor? Chama um táxi, vá para casa, fiquei debaixo do chuveiro e tome consciência do quão maravilhoso você foi para mim. Não chore feridas aparentemente incuráveis nem mergulhe nos textos suicidas que fingíamos escrever. Se não quiser vir agora, tudo bem, venha depois, só saia daí, onde cheira a traição, onde a espera por uma mulher indecisa prevalece eternamente, onde os móveis começam a empoeirar. Faz favor, pelo nosso pseudo-amor? Vá ser feliz, pois te amo, te desejo bem e nunca quis fazer mal. Eu juro por tudo nessa vida, nunca alimentei a pretensão de levar decepções a você, nunca quis que uma lágrima sequer escorresse pelo seu rosto nem que eu quebrasse seu coração bondoso.
Ah, querido, reafirmo, amo você de uma forma que nem eu consigo entender. Almejo sua felicidade, seu sucesso, seu progresso como o homem maravilhoso que é. Por isso continuo aqui, escrevendo nuns pedaços de papel, amarrotando o vestido de noiva mais bonito do mundo, enquanto o motorista buzina, enquanto o tempo caminha devagar.
[Horas depois, uma mensagem.
De: você
Para: mim
"Está tudo bem", é o que diz.]
Sinto vontade de chorar.
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