Estavam sentados nuns bancos meio bambos tomando um açaí daqueles bem gostosos, gelados e doces. A Noite já havia saído, e trajada com sua manta negra favorita (volumosa e cheia de brilhantes), se fazia infinita e misteriosa lá no céu. O menino e a menina amavam açaí e não hesitavam em prová-lo o tempo todo, pois o gosto era bom, e muito bem eles faziam ao aproveitar as coisas boas da vida, coisas que davam prazer, felicidade. Eles olhavam pra noite como quem queriam estar no lugar dela, vendo o mundo inteirinho, todas as pessoas, seus encontros, seus temores, tudo. A verdade é que eles queriam mesmo, pois imagine só! Lá de cima dá pra fazer milagre, chorar chuva, ver a lua refletida no mar. E o mar, sob a Noite, ficava tão cheio de lua que parecia guardá-la dentro de suas águas negras e profundas. Era belíssimo, tal como o mais fantástico espetáculo dos deuses, que dava aos moços uma vontade de levantar e aplaudir; o que eles de fato faziam, sem pestanejar.
O casal dedicava seu amor à poesia, que protegida no açaí que suas bocas degustavam com apreciação, na amplitude da Noite, em seus cabelos, nos brilhantes dos trajes que estrelavam o céu e nos seixos presos à beira-mar, davam sentido à vida que os mesmos insistiam em utilizar. O menino e a menina, espertos e safos, de bobos não tinham nada; levavam consigo a certeza de que a vida havia de ser tudo, menos fácil, mas ainda assim sorriam para ela e aceitavam o que ela tinha para oferecer com todo o bom grado. E quando faziam poesia, era até meio gozada a cena que eles pintavam com a mente: a menina, ela mesma usando as roupas da Noite, fazendo chover sobre os que sentem calor, aliviando as dores dos mais secos, consolando os desprotegidos. O rapaz, a mesma menina dividindo um açaí com ele, os dois usando a mesma colher, sob o luar da cidade que se desfazia, invadida tamanho amor.
Por falar nos quadros pintados, em suas respectivas mentes havia vários deles, de todos os tamanhos, com cores que ninguém conhecia (tampouco sabia o nome), com imagens que de concretas nada tinham e um pedaço da criatividade que neles mal cabia. Eles eram ávidos da arte que coloria suas vidas pretas e brancas e gostavam de personificar as mais diversas metáforas neles mesmos. E pois depois de tanta semelhança, inúmeras diferenças também tinham; enquanto os cabelos dela caíam curtos e lisos em seus ombros, os dele eram longos e cacheados, como dos anjos das histórias que eles mesmos escreviam. Ela insistia em defender os frutos e ele o trabalho, ela as flores e ele as árvores, uma as nuvens, o outro a limpidez. E assim, com suas semelhanças e diferenças, se reuniam nos dias de Noite bonita e tomavam um açaí grandão, bem delicioso.
Ninguém sabia que eles eram tão grandes que seus corpos mal assistiam a si mesmos. E eles mantinham a mania de desejar ser a Noite para verem a lua dentro do mar e parecerem estar pertinho, quase como se pudesse capturar a mesma com próprias mãos...
O menino e a menina muito tinham para contar. "Como prosavam com tamanha facilidade? Como construíam, com essa aptidão inigualável, composições frásicas tão erradas e tão poéticas?", a Noite se perguntava, temendo a resposta deles. A verdade é que ela queria escrever também, e almejava transformar sua alma numa apologia à arte e à beleza das coisas simplórias - tal como a do casal.
Agora estavam sentado nas cadeiras de madeira e duas das pernas delas eram tortas. O tal açaí quase que acabava, só que tava tudo bem, pois depois eles iriam cada um pro seu canto rabiscar uns versos e dormiriam inebriados, ainda imersos na sensibilidade da fantasia que o mundo os proporcionava. Poeta e poetisa, eles eram como mar e lua e viviam um amor enluarado - mas não sabiam. Juntos, descobriram que para dar profundidade e boniteza aos seus rascunhos, não precisavam usar todas as vírgulas, as palavras mais formosas nem escrever tudo certinho, assim, como que tirado de gramática, mas pôr um pouco da sutileza que formavam suas almas tão transbordantes. Imagine, o casalzinho de moços não tinha muito mas tinha tudo, e às vezes, mesmo a Noite, com toda a sua grandeza admirável, despia-se e invejava-os de pertinho.
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