Nessa noite não fazia frio.
A menina estava com os cabelos secos. Algumas mechas caíam sobre seu rosto inclinado, outras se arrumavam atrás das orelhas.
Ela lia a página 221 de um livro que não era seu. Não guardava sequer vestígios de culpa em seu corpo, pois se julgava merecedora de tal posse; os verdadeiros donos não sabiam e nunca souberam, mesmo vinte anos depois, que os espaços vazios que se faziam notados nas prateleiras haviam sido preenchidos numa outrora.
As páginas exalavam a fragrância de papel intocado, pouquíssimo folheado. Ambos sabiam que ele, o livro, nunca havia sido tocado com tamanha intensidade, e que os segredos aprisionados nas folhas jamais seriam desejados assim, com tanta veemência novamente.
A menina era a meteorologista.
Previsão do dia: nada.
O sol já havia partido e uma nuvem negra gigantesca se erguia sobre a pequena cidade francesa - aquela, onde havia uma praça à la francesa, com bancos franceses e postes de luz franceses, também.
A menina lia, lia, lia. Às vezes, parava para refletir sobre um parágrafo marcante e observava as pessoas que percorriam a rua - rua que era francesa, por sinal - vestindo casacos pesados e reclamando da temperatura baixa.
Gozado que fizesse tanto frio alí fora e, dentro da menina, tanto calor.
O livro parecia vivo e confortável no colo da menina, e nos ouvidos dela, duas perguntas sussurradas:
”- Hans Hubermann? O senhor ainda toca acordeão?”
A história era boa, muito, muito boa. A menina mergulhava nela, aspirava-a, sentia-a, embebedava-se dela e roubava-a para si. Assim, totalmente inebriada, se encantava em cada canto e continuava lendo, página após página.
O livro da menina ladra era branco e vestia um título pintado com letras vermelhas caligrafadas. Não fazia o tipo chamativo, mas era grosso - devia ter umas 500, talvez 520 páginas - e se encaixava perfeitamente nas mãos de sua dona.
A lua escalava o céu e a menina continuava lendo. O nome dela, ninguém sabia. O que ela fazia, esperava por um rapaz.
Ele chegava. Sentava ao lado dela (no banco francês) e pensava em maneiras de interromper sua leitura, sem parecer insensível ou atroz - qualidades que ele definitivamente não tinha.
Ao rapaz podiam ser dedicadas um punhado de definições, mas nenhuma parecia lhe caber perfeitamente. Também era jovem e alguns pelos lhe apontavam o protótipo de barba. Tinha a voz tranquila, um par de íris escuras, mãos calejadas e alma de poeta-aprendiz.
Resolvia esperar. A noite dos dois era longa, eterna, e não havia motivo para pressa.
- Quelle heure est-il? - Ela perguntou. - Que horas são?
- Seis para as oito.
Um pequeno pensamento secreto se formava na cabeça da menina quando ele falava: os lábios dele a assombravam.
Uma pequena observação era feita na cabeça do rapaz: a lua é branca, mas dá pra ver umas manchas negras quase imperceptíveis, se espremer os olhos como um vovô míope.
- Hoje, o que tu tens? - Indagou a menina.
- Dois biscoitos de chocolate, uma mentira para contar.
Um momento de silêncio.
- Soa bom.
Então, trocas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário