Dois homens que fazem tranças nos cabelos e buscam água no deserto de suas vidas, pólen para suas margaridas, ondas para soprarem música de mar em seus ouvidos.
Gente que não crê na imensidão do amor, se recusa a gritar e cantar a letra de uma boa música, faz as malas, desfaz a vida, foge, abandona, morre.
Rostos que vivem sem rostos, cobertos apenas por pele, músculos e meio sorrisos.
Aqueles que compram rosas de plástico (ao invés de cultivá-las na terra com minhocas e espinhos) para que, assim, não desfaleçam, mas falecem, admirando a artificialidade irreal de uma produção de pureza intangível.
Uma moça que prefere “ter aquela velha opinião formada sobre tudo a ser uma metamorfose ambulante”.
Sete crianças que brincam de amarelinha com pedaços de giz roubados na escola, morrem um pouco, todos os dias, mas sobrevivem as mortes como fênix, renascendo das cinzas, metaforizando-se.
Três gatos com pelagem negra que moram num beco da rua, passam por baixo de escadas e encontram comida sob um pedaço de jornal rasgado. Depois comem e ronronam, satisfeitos.
Pessoas que carregam livros e fazem deles um potente aquecedor para as noites frias de primavera, almofada para pôr sob a cabeça (quando as penas da cama parecem feitas de pedra), cobertor, amor, cheiro, fruto, árvore, estrela etc.
Uma estranha que pensa fazer poesia - amadora, imagine só - mas só distrai a alma com palavras que, soam belas para os apreciadores de dicionário e inertes para os falsos amantes.
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