domingo, 16 de outubro de 2011

Ela, flor de lis


Parecia uma flor de lis, toda delicada. E aquele dia, sem dúvidas, era.
Frio, gélido, rude.
Mas ela admirava a paisagem nebulosa ouvindo na rádio músicas altas, alegres, engraçadas, ainda que seus olhos descartassem lágrimas, ainda que o dia se mantivesse.
Frio, gélido, rude.
Dentro da cabeça dela, um pianista tocava e dançava, notas musicais surgiam e faziam festas. Dentro da cabeça dela, um mundo fantasioso e belo se escondia, flores brotavam sem terra nem pé e os feijões sobrevivam sobre pedaços úmidos de algodão. Não existia, dentro da cabeça dela, um sequer dia como esse.
Tão frio, gélido, rude.
Apenas sol agradável e estrelas brilhantes cercadas por vaga-lumes que a lua enamoravam. Apenas poetisas felizes, frutos sem caroços, amores sem poeira e doses anti-nostalgia. Porque a imaginação que vivia dentro da cabeça dela era infinita, ilimitada, doce e infantil, como abelhas, como neve. Mas essa neve era diferente da que preenchia aquele dia.
Frio, gélido, rude.
Ela não tinha nome, identidade ou cartão de crédito. Só a imaginação. Só aquele ar delicado. Só a semelhança com flores de lis. Só o que cabia dentro do coração frágil, quase como vidro.
E já era tudo.
Pois fazia dos dias.
Frios, gélidos, rudes.
Dias para levantar da cama bem cedo, ler um livro, ouvir músicas altas, admirar a paisagem.
E sorrir.

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