Eu nunca comi ameixas. Ouvi falar que é um fruto de árvore rosácea bem capcioso, intrigante, mas nunca cheguei a nenhuma conclusão. A ajuda que poderia ser-me concedida não existe, pois as pessoas divergem entre si: “É doce, leve, tem gosto de infância, de súplica de mãe!”, “Doce? É claro que não! Ameixa é um fruto amargo, amarguíssimo, com gosto de pecado, de amor mal degustado…” Assim, vejo-me só, diante do disperso véu do mistério das ameixas. Que sabor teria esse pedaço de vida comestível?…
Minha maluquice mascarada subitamente se anima com a ideia de refletir sobre as mesmas.
Eu sempre achei que, por ter a cor que tem (um roxo rosado, vermelho, bonito que só), a ameixa fosse cítrica e lembrasse o beijo que não foi roubado, o doce que, esquecido fora da geladeira, salgou. Que a fragrância assemelhava-se a chuva em dia nublado, talvez leite com canela, vento que sopra pesado em quem fita o invisível. E que ameixa também remetesse à poesia cantada por um beija-flor, que sem ter um fruto para saciar o desejo do sabor, prova das ameixas.
Se ele - o beija-flor - gostou ou não, eu não faço ideia; apenas sabe-se que ele comeu todas as ameixas que viu pela frente e depois recitou uns poemas bonitos à beça.
Mas me remetem a essência de tudo, a um tempo obsoleto cheio de simplicidade e alegrias banais, essas tais de ameixas. E também catucam minha frouxa sanidade, servindo de passa-tempo, concedendo-me um leque de ideias para mais um texto com pouco sentido - bem como todos os outros.
Mesmo com uma memória falha, lembro-me de ir à feira comprar frutas, de pôr as tangerinas na sacola e de observar, distante, as ameixas, como quem tem vontade de comprar mas antecede automaticamente - uma forma leve e inconsciente da própria consciência de burlar o encontro de boca, língua, saliva e ameixa.
Vez ou outra o pessoal da freira me oferecia uma ameixa de graça, para eu provar e pôr fim ao mistério bobo e infantil que abrigava mais um entre vários gostos.
Eu nunca aceitei, pois, sinceramente, prefiro permanecer dessa forma, criando e fantasiando cheiros e sabores existentes apenas numa horta fértil do meu próprio imaginário. Qual seria a graça das ameixas se eu as conhecesse? Qual seria a diversão dessa minha insanidade de refletir sobre as mesmas, se de seu fruto eu já houvesse degustado?
Não haveria graça alguma, diversão nenhuma, e esse texto tão falho nem chegaria perto de uma exímia existência…
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