domingo, 20 de novembro de 2011

A família miserável e meu doloroso fim

Sou Broa, pão de milho, e me despedaço na mesa do café da manhã de uma família miserável que só me tem para comer.
Não há por quê, pra quê mentir. A porca que guarda umas moedas sem valor chora sangue e na cidade não há espaço para a pobreza. O pai, que não consegue suprir as necessidades da casa, prossegue morrendo aos poucos, carregando todo o peso do mundo com os braços frágeis e fracos. A mãe respira, inspira, manda as crianças dormirem pra sarar a fome, mas Dona Fome prega os pés nos estômagos dos pequenos e não se cura, se não com comida. As crianças escutam a mãe, tentam dormir, fingem que o fazem, mas guardam em segredo o fato de que não conseguem, pois sentem uma ligeira e incômoda dor na barriga.
A comida sou eu, Broa, pedaço de comestível que afoga dores estomacais, que desperta os instintos humanos, que não tem fome.
Agora eu estou no centro de uma mesinha feita de madeira, que têm dois pés quebrados e por isso me balança; a mesa não deve valer mais do que o ar que a família respira, nesse lugar onde quem tem dinheiro vive e quem não tem, morre. Seus nomes eu protejo em codinomes, apesar de que também nada valem. A utilidade é que assim o episódio torna-se um pouco mais irreal e, consequentemente, menos dilacerante.
Todas as cinco figuras humanas me circulam. Sinto o peso de seus olhos arregalados, ouço os pobres corações pulsando, as mentes tontas de vontade. Sei que sou o último pedaço de pão, sei que todos me desejam como nada mais e considero-me de suma importância, precioso, valioso, quase igualável a restos de diamante. Se eu tivesse boca, sorriria…
No meio disso tudo, há um fato irrefutável: essa família pode pôr a culpa de sua situação miserável em outras famílias que ostentam um luxo desnecessário, que vivem como nobres, vestindo trajes majestosos e comendo galinha assada nas principais refeições. Essa família pode gritar toda a sua fúria, pode perguntar à Deus porque há tanta injustiça e desigualdade no mundo, pode enfiar uma estaca nos corações uns dos outros e preferir um encontro rápido com a Morte ao desfalecimento lento e caprichoso de seus corpos apáticos. Mas não o faz. Ao invés disso, as cinco criaturas vistas como vergonhosas, causadoras da desgraça e proclamadoras da infâmia apenas choram em silêncio, às vezes, com os braços entrelaçados, e rezam.
Por que, Meu Deus?
Apesar de ser apenas Broa e não ter necessidades vitais como os seres humanos, sei que a fome causa dor, pois a vejo nos olhos semicerrados de quem a sente. Mesmo como Broa, eu tenho dó, pois sou capaz de enxergar a bondade existente nos corações dessas pessoas que não almejam ventura, apenas a vida, e é uma bondade tão genuína, tão bonita!… Apesar da minha incapacidade de mover, minha vontade é de criar asas e voar para bem longe, pois sei que a situação da família nada vai mudar, e sendo assim, quero esquecê-la para fingir que no mundo há apenas prosperidade. Se eu tivesse olhos, choraria…
A mãe é a primeira a agir. Eu não sou muito grande, já que sou apenas um pedaço e não o pão inteiro, mas ela consegue me partir de em três fatias. E eu não entendo, fico ligeiramente confuso; se são cinco pessoas, como três pedaços satisfarão todas? Então observo sem me mover, pois também não tenho braços ou pernas: a mãe pega cada um dos pedaços e entrega aos seus filhos. Olha para o marido, o abraça.
E chora.
Eu sinto as pequenas mãos das crianças me segurarem com força e desejo, sou mordido, mastigado e engulido pelas mesmas, até que de mim não sobram nem migalhas. Elas me aproveitam, saboreiam, eternizam o ato de comer. Olham para os pais, percebem as lágrimas nas faces deles e escutam o som de estômagos roncando.
Eu já não existo mais e não sei como o faço, apenas sinto: as crianças também choram.

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