domingo, 20 de novembro de 2011

O que faço num pedaço de papel

Desenho ruas com meu giz branco até meus dedos pulsarem e meus olhos admirarem, satisfeitos, um pedaço de mundo particular, um pouco da transferência do meu imaginário para um cenário completa e excessivamente real. Eu rabisco umas flores-de-lótus e coloro com cores diversas, como se minha insanidade fosse colorida e a vida, menos preta-e-branca. Nomeio as ruas com belos codinomes (Princesa de lis, Negra-flor, Príncipe dos jardins encantados) e desenho pessoas sem olhos com largos sorrisos e dentes absurdamente tortos. Ouço muitos dizerem que minha planificação pessoal é um sonho acordado, uma forma que eu mesmo arranjei para sentir menos dor e aliviar frustrações infantis, mas eu tampo os ouvidos, pois são insuportáveis esses julgamentos alheios sobre o que penso, faço, deixo de fazer. Minha cidade é minha casa, meu abrigo indestrutível, e ninguém há destruí-lo, nem com a força das palavras. Ainda que a chuva manche os traços feitos de giz, não me importo, pois sinto prazer em reconstruir, talvez amadurecer algumas mobílias e acrescentar semáforos onde antes não havia tráfego. Permito que a chuva dance dentro do meu canto, pois ela é bela, pura, limpa e não machuca-me, diferentemente das silhuetas humanas que insistem em destruí-lo.
Sou o rei. Aqui, o mundo é todo bonitinho, as nuvens não têm o formato da dor, o sangue que corre nos lagos é o de corações, que tão cheios de amor, transbordam. Aqui, dentro dessa folha de papel - um pedaço mais comprido, feito tipo cartolina -, eu mergulho em meus rabiscos falhos, crio asas e voo junto com gaivotas. Depois deixo-as para trás e subo até o fim dos universos, renunciando a Terra e fitando-a a milhares de anos-luz, transmutando-me num grandioso e cegante raio de luz.
Aqui, eu literalmente viajo, gozo da pureza da minha própria personalidade e abandono, na forma mais linda e pura da desgraça, minha ostentosa existência.

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