eu não entendo como nasceu esse sentimento insano e traiçoeiro dentro de meu peito. São insuportáveis essas suas visitas, essas cartas que você me escreve com uma caligrafia tão única e bela. Nunca encontrei um “H” como o seu, tão delicado e cheio de voltas, nunca senti uma fragrância tão deliciosa como a que abriga as folhas de papel enviadas. Parece que seus dedos exalam perfume, que sua caneta é feita de rosas e a tinta, de sangue desse meu coração machucado que não sabe mais pulsar. Todo o contato que tenho com você, seja face-a-face ou por intermédio de meus sonhos urgentes é precioso, mas me causa uma dor inebriante. Por isso preciso de você aqui e agora, mas, ao mesmo tempo, a milhões de anos-luz. Consegue compreender?
Lembro-me claramente de tê-la avistado à beira-mar em um dia nublado. Eu sempre tive mania de deitar na areia e admirar as nuvens negras do céu nos dias de possíveis tempestades. Estávamos no outono, e tempestades no outono eram bastante incomuns, mas ela iria chegar e isto era um fato claro e irrefutável. Enquanto eu admirava a agitação clara e intensa do mar, percebi um semblante incomum e me senti automaticamente atraído, como se em você houvesse um ímã e eu fosse feito de metal. Você usava um vestido estampado e seus cabelos voavam, inquietos, açoitando-lhe a face. Mesmo tão distante, pude perceber que seus olhos gritavam a dor do coração e despejavam lágrimas sem parar. Aproximei-me, descalcei meus pés e pus-me a cantarolar uns recitais de poemas que havia escrito e decorado, sem pretensões de bancar o último romântico. Pouco tempo depois, você sorriu.
Agora estou aqui, escrevendo uma carta que provavelmente permanecerá trancada em minha gaveta até que eu crie coragem para enviá-la. A possibilidade da falta de reciprocidade do seu amor me tortura, e por ter certeza de que a certeza acabará com minhas forças patéticas, permaneço adiando o inevitável. Deixe-me deixar claro, límpido: você sorriu. É clichê conhecido que o sorriso é maquiagem mais bonita que uma mulher pode usar, mas não tenho como discordar; por trás de seus dentes ligeiramente tortos e de seus lábios feridos, eu vi uma poetisa, uma belíssima flor pronta para desabrochar. Você parecia tão perdida, e eu também não sabia onde estava, então percebi que podíamos servir como mapa um para o outro, e mergulhei nesse romance inesperado.
Sentimentos, emoções, amor… Bah. Antes de você aparecer, eu só os dedicava à lua, ao mar, aos seres quem guardavam poesia dentro de si e transbordavam uma essência deliciosa de sentir. Mas você sorriu, e aí…
Hoje sou um homem poeta doente de amor. Padeço solitário imerso em minhas próprias indecisões, no desespero das confirmações, no medo da prisão pelas decepções penosas e mortais. Hoje minha caligrafia é uma imitação falha da sua, uma tentativa de aproximação, de me fazer igualável ao ser que reside em seu corpo humano. Você é a moça mais bela que eu já vi, e isso também causou grandes impactos em minha mente. Suas madeixas cor de mel têm o tom perfeito, seus olhos castanhos esbanjam ingenuidade e doçura, o desenho de seu corpo parece o rascunho, o protótipo da perfeição feminina. E como se por fora não bastasse, aí dentro há uma senhorita adorável, aprendiz da arte da sedução, que sabe admirar os poemas frágeis que escrevo - perfeita para o amador que existe em mim.
Você me fez insano, esgotou minhas forças, exilou-me num abismo infinito, ainda que inconscientemente. Quando me concede sua amizade, mesmo que na forma mais pura possível, atira no coração decadente desse homem que te escreve. Quando adia o encontro de nossos lábios, arranca de mim um fio de esperança - e é nesses fios que enrolo minha vida desesperada.
Princesa, minha razão, dona do meu corpo, das minhas palavras, da minha respiração, eu te amo, e esse amor que te dedico, ainda que doentio, é muito, muito belo - não vê?
Por favor, por favor, me ame de volta. Eu imploro…
Um milhão de beijos, de afagos, de cheiros, de abraços cheios de ternura,
Seu Príncipe.
Por trás de seus gatos pretos e de seus lábios feridos, eu vi uma poetisa, uma belíssima flor pronta para desabrochar.
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