domingo, 20 de novembro de 2011

Princesa,

eu não entendo como nasceu esse sentimento insano e traiçoeiro dentro de meu peito. São insuportáveis essas suas visitas, essas cartas que você me escreve com uma caligrafia tão única e bela. Nunca encontrei um “H” como o seu, tão delicado e cheio de voltas, nunca senti uma fragrância tão deliciosa como a que abriga as folhas de papel enviadas. Parece que seus dedos exalam perfume, que sua caneta é feita de rosas e a tinta, de sangue desse meu coração machucado que não sabe mais pulsar. Todo o contato que tenho com você, seja face-a-face ou por intermédio de meus sonhos urgentes é precioso, mas me causa uma dor inebriante. Por isso preciso de você aqui e agora, mas, ao mesmo tempo, a milhões de anos-luz. Consegue compreender?
Lembro-me claramente de tê-la avistado à beira-mar em um dia nublado. Eu sempre tive mania de deitar na areia e admirar as nuvens negras do céu nos dias de possíveis tempestades. Estávamos no outono, e tempestades no outono eram bastante incomuns, mas ela iria chegar e isto era um fato claro e irrefutável. Enquanto eu admirava a agitação clara e intensa do mar, percebi um semblante incomum e me senti automaticamente atraído, como se em você houvesse um ímã e eu fosse feito de metal. Você usava um vestido estampado e seus cabelos voavam, inquietos, açoitando-lhe a face. Mesmo tão distante, pude perceber que seus olhos gritavam a dor do coração e despejavam lágrimas sem parar. Aproximei-me, descalcei meus pés e pus-me a cantarolar uns recitais de poemas que havia escrito e decorado, sem pretensões de bancar o último romântico. Pouco tempo depois, você sorriu.
Agora estou aqui, escrevendo uma carta que provavelmente permanecerá trancada em minha gaveta até que eu crie coragem para enviá-la. A possibilidade da falta de reciprocidade do seu amor me tortura, e por ter certeza de que a certeza acabará com minhas forças patéticas, permaneço adiando o inevitável. Deixe-me deixar claro, límpido: você sorriu. É clichê conhecido que o sorriso é maquiagem mais bonita que uma mulher pode usar, mas não tenho como discordar; por trás de seus dentes ligeiramente tortos e de seus lábios feridos, eu vi uma poetisa, uma belíssima flor pronta para desabrochar. Você parecia tão perdida, e eu também não sabia onde estava, então percebi que podíamos servir como mapa um para o outro, e mergulhei nesse romance inesperado.
Sentimentos, emoções, amor… Bah. Antes de você aparecer, eu só os dedicava à lua, ao mar, aos seres quem guardavam poesia dentro de si e transbordavam uma essência deliciosa de sentir. Mas você sorriu, e aí…
Hoje sou um homem poeta doente de amor. Padeço solitário imerso em minhas próprias indecisões, no desespero das confirmações, no medo da prisão pelas decepções penosas e mortais. Hoje minha caligrafia é uma imitação falha da sua, uma tentativa de aproximação, de me fazer igualável ao ser que reside em seu corpo humano. Você é a moça mais bela que eu já vi, e isso também causou grandes impactos em minha mente. Suas madeixas cor de mel têm o tom perfeito, seus olhos castanhos esbanjam ingenuidade e doçura, o desenho de seu corpo parece o rascunho, o protótipo da perfeição feminina. E como se por fora não bastasse, aí dentro há uma senhorita adorável, aprendiz da arte da sedução, que sabe admirar os poemas frágeis que escrevo - perfeita para o amador que existe em mim.
Você me fez insano, esgotou minhas forças, exilou-me num abismo infinito, ainda que inconscientemente. Quando me concede sua amizade, mesmo que na forma mais pura possível, atira no coração decadente desse homem que te escreve. Quando adia o encontro de nossos lábios, arranca de mim um fio de esperança - e é nesses fios que enrolo minha vida desesperada.
Princesa, minha razão, dona do meu corpo, das minhas palavras, da minha respiração, eu te amo, e esse amor que te dedico, ainda que doentio, é muito, muito belo - não vê?
Por favor, por favor, me ame de volta. Eu imploro…

Um milhão de beijos, de afagos, de cheiros, de abraços cheios de ternura,
Seu Príncipe.

Um comentário:

  1. Por trás de seus gatos pretos e de seus lábios feridos, eu vi uma poetisa, uma belíssima flor pronta para desabrochar.

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