domingo, 16 de outubro de 2011

Um breve relato de uma distribuidora de flores


Eu distribuo flores até para quem não aprecia a arte da jardinagem, até para quem diz ter o coração feito de pedras e farpas, até para quem eu sei que irá agradecer e jogar fora. Não me importo com o suposto trabalho, pois sou a favor da proliferação das fragrâncias gostosas, do compartilhamento das sensações agradáveis que transbordam de pétalas, poemas, discos de vinil. Ver que brota, em algumas pessoas, o interesse pelos mesmos me compensa, pois aí a arte cresce e o mundo muda um pouquinho. Não canso de viver no meio da ilógica taciturnidade do que é “mudar vidas”, gosto de aprender, refletir, criticar, e me satisfaço, como pessoa, quando chego a alguma conclusão. É, não quero mudar de assunto, mas também sinto que estou mudando; volta e meia, me vejo sendo contra o que antes apoiava com todos os fios de cabelo ou reescrevendo textos que, antes mesmo de ontem, eu jugava como protótipos da perfeição. Sou amadora, cometo erros gramaticais em minhas composições frásicas e, vez ou outra, apago tudo para recomeçar. Mesmo que nem todos concordem, expresso e afirmo não achar que gramática seja tudo. Para mim - uma pseudo-poetisa, aprendiz de beija-flor - o que importa, de verdade, é que esse desejo insaciável de fazer o mundo enxergar brilhantes obviedades nunca se perca, nunca se permita calar.
Com toda a sinceridade do mundo, revelo: acho que todas as pessoas deveriam distribuir flores, também. Flores em vasos cheios de terra, com uma ou duas minhocas e uma casca de banana para adubar e fazê-las florescer com vivacidade e bom humor. Assim, haveriam trocas de vasos (já que todos iriam doar e ganhar em grande quantidade, mas sem a pretensão de dar para receber) e as pessoas poderiam ter, dentro de suas casas, grandes jardins. Cuidar de jardim é terapia, sabe? Relaxa, ensina, tranquiliza, embeleza…
Sei que fujo um pouco da realidade, mas não me envergonho de meus sonhos. Sei que, um dia, quando eu acordar e for à padaria comprar meia dúzia de pães, verei, com os meus próprios olhos, essa distribuição de flores da qual tanto falo. Enquanto isso não acontece com o mundo inteiro, me contento em fazer a minha parte. E assim, aos pouquinhos, amoleço um ou dois corações amigáveis e satisfaço-me como distribuidora que sou.

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